Jô Soares tem que morrer
Segunda-feira, 22 de junho de 2015

Jô Soares tem que morrer

Por Roberto Tardelli

// Colunistas Just

 

Jô Soares tem que morrer e Silas Malafaia precisa achar uma rola. Esse é o nível das questões debatidas atualmente. Parece que a estupidez pula todos os muros e nos contamina coletivamente. Lá no Chile, após mais uma exibição vergonhosa, uma decadente seleção canarinho vê seu último astro agir como uma criança tola, dando cabeçadas ao vento. Senadores e políticos brasileiros vão para a Venezuela, imperialistas e idiotas, sancionar a ausência de democracia por lá; na comitiva, tinha até um ruralista, que não é exatamente um exemplo de tolerância. Na Câmara Federal, adolescentes passam a responder como adultos, nos casos de crimes hediondos, um resultado tosco e burríssimo de qualquer ponto de vista da histeria causada por um falso debate, uma falsa questão, a da redução da idade e imputabilidade penal.

Estamos vivendo o ódio militante. O ódio recíproco, o ódio democratizado, todos odeiam todos e ninguém passará despercebido. Relaxe, alguém o odiará, não há saída, algo sempre restará para ser odiado, um clube de futebol pode ser um bom início, ainda que esse futebol de merda a que assistimos. Se você gostar de funk, ou cantar funk, gol do ódio.

Após ter matado doze animais, estupidamente, uma mulher foi condenada a doze anos de Cadeia, sob os intensos aplausos do ódio ecológico. Animais precisam ser protegidos, como as crianças e os idosos. Rojões de felicidade estouraram pela pena enorme, igual a um homicídio qualificado. Doze anos, oba!!!

Uma garota levou uma pedrada gospel ao sair de um templo de candomblé. A novela mudou sua história e separou os casais homoafetivos porque houve protestos e gritos contra suas personagens, senhoras octogenárias, que trocaram um selinho. Para agravar o folhetim, uma sombra ateísta rondava o casal lésbico. Fim de linha, separadas até na ficção novelesca.

Em uma sessão do Congresso Nacional, deputados rezam, ou oram. Um culto evangélico, a propósito de uma transexual crucificada na passeata gay. Fotos de outras paradas e outros países guarneceram a reza oficial. Nem nos mais duros e cruciantes dias do regime militar, imaginou-se algo assim.

Um clube de bacanas de São Paulo, que tem no quadro de associados um sem-número de professores, doutores e sabidos de todos os ramos do saber científico, o Clube Pinheiros, exige que as babás usem branco. Roupas brancas. Branquíssimas, sob a justificativa da necessidade de proteção dos sócios. Babás suspeitas…

Na Arena Corinthians, o Time do Povo, o Coringão, o ingresso caro expulsou o que o time tinha de melhor, a torcida espontânea, que enfrentava ônibus, chuva e trem. Agora, há camarotes e ingressos caríssimos. O povão corintiano foi expulso. Cartão vermelho.

Estamos caminhando perigosamente na beira do abismo.

Descobrimos nossa capacidade de odiar.

E nosso ódio purificador nos dá a mais perigosa das sensações: a de superioridade, sem nos darmos conta que muitas vezes apenas sobrepomos preconceitos. Ao mandar o pastor obscurantista procurar uma rola, nada mais se fez que lançar a um notório homofóbico uma ofensa profundamente machista, tão tacanha quanto a homofobia que abomina.

No Rio de Janeiro, onde as comunidades vivem sob estado de sítio, tomadas pelo Exército em guerra contra o crime, a ofensa eventualmente dirigida a um militar era julgada pela Corte Marcial. Houve a necessidade de o Supremo Tribunal Federal dizer o óbvio; até esse pronunciamento, um longo percurso jurídico em que se pisoteou o chão das estrelas dos direitos fundamentais. Em São Paulo, nossa polícia militar conseguiu um feito terrificante: matou mais que os bandidos que persegue. Na crueza estatística, está mais perigoso encontrar a polícia.

Tudo se justifica na guerra contra o crime, em que o inimigo precisa ser identificado, mas há de ser construído. Essa construção somente se torna possível com o recrudescimento dos estereótipos sociais. Ou seja, aprofundando-se os preconceitos, que estimulam delações, entregas, dedurismo e estimula heroísmos jurídicos, capas pretas justiceiras. Na trincheira da guerra contra o crime, existe um castelo a ser destruído, onde mora a Impunidade. Todas as balas se justificam, todos os incêndios são feitos para queimar suas paredes; nesse momento, não há sentido algum na preservação de direitos, que servem apenas para fortalecer os muros do castelo maldito. Depois de derrubado, construiremos novamente a cartilha dos direitos fundamentais que rasgamos.

O castelo, porém, é quimérico e nunca existiu. Antes de ser um castelo, é uma sombra, uma sombra enorme, que somente se dissipará se houver um céu claro e se todos puderem abrir suas portas e janelas, simplificarem-se os formulários burocráticos, rasgarem-se as bulas policialescas. A impunidade não se combate com obscurantismo, mas com transparência.

Procurando uma rola, atirando pedras contra meninas saídas de cultos afros, desejando a morte pintada na rua, prendendo midiaticamente, encarcerando pessoas para que elas confessem ou se curvem a versões oficiais, vestindo de branco jovens babás, transformando o Parlamento em um templo de ódio oficial e sacralizado por uns poucos, tornando-nos paranóicos dirigindo carros blindados, estamos não apenas quebrando uma ordem jurídica, não apenas violando direitos abstratos, por mais visíveis que sejam e, por isso mesmo, tão negados.

Algo começa a se quebrar dentro de nós. Dissolver-nos, dispersar-nos.

Quando rompemos com a paz, o que nos sobra não é a guerra.

É a barbárie.

Roberto Tardelli é Procurador de Justiça aposentado (1984/2014), onde atuou em casos como de Suzane Von Richthofen. Atualmente é advogado da banca Tardelli, Giacon e Conway Advogados, Conselheiro Editorial do Portal Justificando.com e Presidente de Honra do Movimento de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.

Segunda-feira, 22 de junho de 2015
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