Onde você esconde seu racismo? Porta dos Fundos e o token nosso de cada dia
Sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Onde você esconde seu racismo? Porta dos Fundos e o token nosso de cada dia

No vocabulário técnico das práticas racistas e machistas, chamamos de TOKEN quando uma pessoa acusada de ser opressora usa pessoas de suas relações sociais que pertence as ditas minorias para se defender e justificar sua atitude ofensiva e preconceituosa.

O grupo de humoristas do programa Porta dos Fundos, exemplificou isso de maneira brilhante e ousada, no vídeo intitulado “Amiguinho” onde um casal que mantém filho em escola particular vai questionar a direção da escola sobre a expulsão de um aluno negro. Eles imploram para que a diretora mantenha o aluno negro, porque sem esse aluno eles não teriam como se desviar das acusações de racismo.

Grande sacada. Não é a primeira vez que o programa esboça críticas sociais desse nível, eu por acaso já vi mais dois vídeos sobre a questão, um deles que descreve uma excursão na favela e outro que fala da questão da dificuldade de se dizer a palavra ‘negro’.

Esses vídeos, embora explorem de maneira bem humorada questões sérias para discussões sobre racismo, desperta questionamentos que casam com a fama da democracia racial que nosso país ostentava antes dos apontamentos da ONU que visitou o Brasil em dezembro de 2013.

É justamente esse mito que representa o grande entrave na luta contra o racismo institucionalizado, pois seus efeitos são bastante convincentes no senso comum da sociedade. Para quem vê o vídeo humorístico entre outras manifestações de pessoas brancas em outras mídias (como o #somostodoshumanos por exemplo), inevitavelmente acredita nas eficácias das boas intenções e a impressão que fica é que todos estão lutando juntos pela igualdade de oportunidades para as raças estruturais que ocupam nosso país.

Mas, olhando de perto, facilmente se destrói esse pensamento. Apesar do bem intencionado programa expor uma situação típica de tokenização, faltou a crítica de suas próprias práticas e condutas. Ora, se uma turma de brancos jovens, talentosos e intelectualizados o suficiente para captar a sutileza dessa prática racista e retratá-la de maneira consciente, porque a mesma precisão de raciocínio não se volta para o fato de que no seu elenco não há pessoas negras?          

Temos aí uma segunda situação de tokenização, só que dessa vez inconsciente até certo ponto, pois apesar de assertiva, a crítica racial não vem acompanhada de um mea culpa capaz de identificar que embora os roteiristas sejam supostamente contra a situação exposta, não caminham em direção a solução da situação de racismo.

Ou seja, racismo é ruim quando é com os outros, comigo é naturalizado a ponto de eu nunca ter notado que não há representatividade negra no meu programa.

Isso é bem costumeiro na rotina das relações sociais entre negros e brancos no Brasil. Temos um contingente de cerca de 90% de pessoas que afirmam que racismo existe e que já presenciaram situações de racismo contra 92% de pessoas que se afirmam não racistas. Essa discrepância entre discurso e realidade é resultante da falta de crítica da pessoa branca, que grosso modo, não se inclui no conjunto de práticas que fomentam o racismo. Ela na verdade nem cogita o fato de que pode (e é!) racista

É necessário que as pessoas brancas olhem para as suas vidas com honestidade e não apenas reconheça seus privilégios, mas trabalhe para que dentro do meio onde se relacionam socialmente, essas distâncias sejam eliminadas. Os avanços na questão racial são ínfimos, apesar de estarmos exatamente há 127 anos do pós-abolição. Tivemos um hiato de quase um século e meio e as distâncias entre negros e brancos são abismais.

Também devemos considerar a total falta de interesse por parte das pessoas brancas em estudar a fundo o que de fato é o racismo.

Sendo assim, não sabem exatamente do que se trata em termos teóricos, prioritariamente reduzem a uma simples expressão de preconceito e acham que conviver com pessoas negras de maneira aceitável o excluí do conjunto de práticas que constituem a institucionalização do racismo.

Pergunte a uma pessoa branca, quantos autores negros ela já leu, em quantos eventos que discutem essas questões com seriedade ela já participou, entre outras coisas que pessoas negras promovem e a resposta não virá, porque não fazem isso.

Pergunte a uma pessoa branca, quais são os reais problemas que a população negra sofre e como lidam com as inúmeras limitações que enfrentam no seu cotidiano e ela não saberá. Peça para uma pessoa branca identificar uma situação de racismo, daquelas extremamente sutis que só quem convive com a sua pele negra desde o nascimento reconhece, e ela não vai passar do lugar comum.

Mas sejamos francos, há uma necessidade urgente de cada pessoa branca fazer uma autocrítica e perguntar a si mesmo:

Onde eu escondo MEU RACISMO?

Porque vivendo em uma sociedade estruturada pelo sistema de poder onde um grupo está acima do outro e um dos determinantes que estabelece essas relações é o fator raça, é mais do que óbvio que dificilmente alguma pessoa branca consegue escapar. Todos são racistas, em escalas diferenciadas, guardadas as devidas desconstruções a que alguns se permitem, mas à medida que usufruem livremente dos privilégios que esse sistema de poder lhes garante já está automaticamente enquadrado na estrutura racial que oprime pessoas em função da manutenção desses privilégios.

É necessário que as pessoas brancas olhem para as suas vidas com honestidade e não apenas reconheça seus privilégios, mas trabalhe para que dentro do meio onde se relacionam socialmente, essas distâncias sejam eliminadas. Os avanços na questão racial são ínfimos, apesar de estarmos exatamente há 127 anos do pós-abolição. Tivemos um hiato de quase um século e meio e as distâncias entre negros e brancos são abismais.

O racismo, como bem observou a ONU, é institucionalizado. Ele está nos hospitais, nas escolas, na mídia, nas rodas de conversa, nas bibliotecas, nos centros de consumo, nas relações afetivas, nas relações familiares, em toda parte. Ele está lá naturalizado e é preciso que se diga o óbvio: não estamos falando de uma entidade autônoma que se mantém à revelia das dinâmicas sociais e sim de um conjunto de práticas onde pessoas brancas são protagonistas ativas e/ou passivas.

Mas em todos os lugares onde o assunto racismo é abordado, há sempre uma pessoa branca usando a presença de pessoas negras em suas vidas como passaporte para a absolvição do posto de racista.

No Brasil, ser racista é considerado abominável pelo senso comum justamente pela ignorância que a sociedade mantém sobre o assunto. Essa ignorância vem da recusa em não se aprofundar no assunto, que por sua vez vem da falta de importância dada ao assunto. E não é importante para quem não é atingido diariamente por ele. E esse o maior cinismo do racista brasileiro: achar o racismo insuportável, mas nadar no raso quando a oportunidade de se mudar a situação é apontada por pessoas negras.

Assim, uma sociedade inteira mantém as diferenças gritantes entre indivíduos da raça negra e da raça branca, simplesmente porque não se permite ouvir e refletir para além da superficialidade de considerar casos de preconceito racial como racismo propriamente dito.

No nível coletivo, a culpabilidade do racismo alheio é unânime, vide o caso do Goleiro Aranha. As pessoas brancas que condenaram pareciam estar convencidas de que não são racistas tanto quanto a acusada. Mas no nível individual, se permite, por exemplo usar o problema central da vida de pessoas negras para garantir sua visibilidade e ao mesmo tempo rejeitar a presença de pessoas negras no mesmo lugar em que ocupa.

Quando a pessoa branca se permite retirar a venda dos olhos, um mundo novo se abre e os efeitos do racismo na vida de pessoas negras, passa a constituir para essa pessoa motivo de vergonha. Mas isso é ainda muito raro. Para nossa tristeza.

O racismo de uma pessoa pode estar escondido atrás da falta de autocrítica, como no caso dos redatores do programa Porta dos Fundos, pode estar escondido atrás da afirmação de que não se relaciona afetivamente com pessoas negras por questão de gosto pessoal, pode estar escondido atrás da suposta falta de oportunidade de conhecer a cultura negra e seus principais atores, pode estar escondido na recusa da empregabilidade de pessoas negras em lugares de poder e alta intelectualidade, pode estar escondido na aparente inocência em negar seu próprio racismo. Enfim, em algum lugar ele está escondido e em algum momento vai fugir do controle.

Então, chegamos a uma conclusão óbvia: pessoas brancas escondem seu racismo, principalmente de si mesmas, por covardia, por conforto, por ignorância e por conveniência. Mas ele continuará lá, atuando silencioso, independente do seu amigo/amor/familiar/colega participar da sua vida e independente da frequência com que você convive com essas pessoas.

A ausência de pessoas negras no cotidiano de pessoas brancas é sim sintomático, mas a presença também não é indicativo de um lugar onde racismo é inexistente, principalmente quando fica muito visível que a pessoa negra está ali para cumprir cotas e proteger pessoas brancas de suas próprias consciências pesadas (ou não!).

E esse racismo que age livremente, embora silencioso para quem é branco, porque para negros ele é extremamente ruidoso, vai continuar alimentando o caos social em que vivemos e do qual em maior escala atinge negro, mas em menor escala atinge brancos também. E ele precisa da sua sinceridade para ser expurgado de maneira eficiente para que seja desconstruído a passos curtos e não vai ser com acusações e apontamentos isolados ao racismo do outro que esse processo será implementado.

Joice Berth é Arquiteta e Urbanista pela Universidade Nove de Julho e Pós graduada em Direito Urbanístico pela PUC-MG. Feminista Interseccional Negra e integrante do Coletivo Imprensa Feminista.
Sexta-feira, 9 de outubro de 2015
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