Um governo de braços dados com o retrocesso
Terça-feira, 17 de Maio de 2016

Um governo de braços dados com o retrocesso

 

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

 

Em seu discurso de posse, o presidente interino Michel Temer afirmou que “o que nós queremos fazer agora, com o Brasil, é um ato religioso, é um ato de religação de toda a sociedade brasileira com os valores fundamentais do nosso país”. A metáfora talvez não tenha sido metáfora.

Um dos valores do país parece ser o desrespeito à laicidade do Estado: terminada a posse, Temer se reuniu com o pastor Silas Malafaia, com quem fez uma oração para pedir à deus que abençoasse seu governo. Conhecido por propagar ódio a pessoas fora da heteronorma e negar a autonomia reprodutiva das mulheres, Malafaia havia recomendado cuidado na nomeação do novo ministro da Educação: queria garantia de que não se falaria de gênero nas escolas. Comemorou publicamente a escolha de José Mendonça Bezerra Filho para a pasta e a extinção do Ministério da Cultura. No pacote de bênçãos estava ainda o desparecimento das secretarias de políticas para mulheres, de direitos humanos e de igualdade racial.

Questionado sobre o gabinete ministerial composto apenas por homens brancos, o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, disse que tentaram “encontrar mulheres, mas por razões que não vêm ao caso, isso não foi possível”. Temer disse querer “representantes do mundo feminino” em algumas secretarias. Umas três, quem sabe quatro. Mais certas parecem ser as intenções de um dia ter Marcela Temer, sua companheira, no governo: “Se acontecer alguma coisa e eu vier a ocupar a presidência (não mais como interino), ela virá para exercer toda a área social. Vai trabalhar intensamente. Ela é advogada e tem muita preocupação com as questões sociais”. Afastadas do governo pela miopia misógina, mulheres podem ser reaproximadas pelo nepotismo.

Sabemos de governos anteriores, inclusive o de Dilma Rousseff, que representatividade sozinha não garante progresso nem respeito à diversidade. Mas a histórica falta de representatividade do novo governo é passo para trás, e não anda só: vem de braço dado com mais religião intrusa em política, mordaça sobre gênero e minorias institucionalmente silenciadas.

Sinara Gumieri é advogada e pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética. Este artigo é parte do falatório Vozes da Igualdade, que todas as semanas assume um tema difícil para vídeos e conversas. Para saber mais sobre o tema deste artigo, siga https://www.facebook.com/AnisBioetica.
Terça-feira, 17 de Maio de 2016
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