A homofobia covarde e sua blindagem pseudo-religiosa
Segunda-feira, 30 de Maio de 2016

A homofobia covarde e sua blindagem pseudo-religiosa

Nas últimas semanas, a intérprete Ana Paula Valladão fez uma crítica sobre uma campanha publicitária que versava sobre a transgressão do padrão de gênero, quando inicia o seu discurso a partir da hashtag #santaindignação.

Ao mesmo tempo, ainda é muito forte a resistência legislativa sobre a criminalização da homofobia (em razão da atuação da “bancada evangélica”), além da dificuldade de inserir a discussão de gênero na educação infantil (que envolve, dentre outros, a abordagem sobre temáticas LGBTIQ).

Para completar esse quadro, tramitam projetos de lei que conferem imunidade material (a similitude da imunidade parlamentar) a líderes religiosos sobre o discurso proferido. Essa proposta parte do pressuposto de que o exercício da religião e da liberdade de expressão sejam direitos fundamentais absolutos, que podem ser exercidos em detrimento do exercício de outros valores jurídicos – em verdadeira configuração do abuso de direito

Em todas essas situações, a reação conservadora se confunde com um tom religioso de preservação de determinados valores que seriam essenciais à dogmática religiosa – o que, no entanto, não corresponde com a verdade.

Primeiramente, cumpre ressaltar que a religião, desde os primórdios da humanidade, ajudou as sociedades a se organizarem, além de ser um dos meios de exercício da “espiritualidade”. No entanto, como qualquer outro fenômeno humanístico, a religião é formada por homens, e muitas vezes foi utilizada para justificar a prática de agressões (da santa inquisição na Idade Média, ao terrorismo baseados no fundamentalismo islâmico atual).

Hoje, esse cenário não é tão diferente, em especial na prática homo/lesbo/transfobia que se baseia em falsas premissas religiosas. Nesse ponto, cumpre esclarecer a “fobia” do termo não se refere necessariamente à violência física, mas envolve também condutas hostis decorrentes dessa aversão enraizada na sociedade, e não na religião.

O único trecho bíblico utilizado para considerar abominável a homossexualidade é o livro “Levíticos”, do antigo testamento. Escrito há mais de dois mil anos (traduzido e reinterpretado incontáveis vezes), também contém vedações a respeito do consumo de carne suína, bem como sobre a utilização de tecidos de diferentes materiais como vestimenta. No entanto, somente a homossexualidade é referida como prática abominável. Em sentido oposto, há o exemplo de Cristo, reportado na mesma bíblia, na defesa de grupos à época segregados (prostitutas, mendigos e leprosos), o que incluiria, nos paralelos de hoje, a população LGBT.

Assim, é notória a falta de honestidade e de coragem desses “líderes” ao se utilizarem do discurso religioso para se protegerem de eventuais críticas. Revestidos sobre o manto da religião, acabam gozando de uma espécie de passe livre para reafirmar essa aversão (‘fobia’), além de estarem ‘imunes’ às críticas de homofobia, quando qualquer crítica ao seu discurso passa a ser uma crítica à sua religião (criada a alcunha ”cristofobia”).

Essas posições além de fortalecerem o estigma que vê a população LGBT como abominação, acabam obstruindo a desconstrução do ideal heteronormartivo fortemente enraizado na sociedade. De outro modo, também dificultam uma discussão mais racional a respeito do tema, uma vez que a religião envolve o exercício da fé (de natureza mais subjetiva).

No fim, o que resta é a covardia dos que usam o nome de Deus em vão (em violação a um dos 10 Mandamentos), para justificar o preconceito ao invés do amor ao próximo

Gabriel da Silveira Mendes é Procurador do Estado de São Paulo e membro do grupo Olhares Humanos.
Segunda-feira, 30 de Maio de 2016
A homofobia covarde e sua blindagem pseudo-religiosa
Segunda-feira, 30 de Maio de 2016

A homofobia covarde e sua blindagem pseudo-religiosa

Nas últimas semanas, a intérprete Ana Paula Valladão fez uma crítica sobre uma campanha publicitária que versava sobre a transgressão do padrão de gênero, quando inicia o seu discurso a partir da hashtag #santaindignação.

Ao mesmo tempo, ainda é muito forte a resistência legislativa sobre a criminalização da homofobia (em razão da atuação da “bancada evangélica”), além da dificuldade de inserir a discussão de gênero na educação infantil (que envolve, dentre outros, a abordagem sobre temáticas LGBTIQ).

Para completar esse quadro, tramitam projetos de lei que conferem imunidade material (a similitude da imunidade parlamentar) a líderes religiosos sobre o discurso proferido. Essa proposta parte do pressuposto de que o exercício da religião e da liberdade de expressão sejam direitos fundamentais absolutos, que podem ser exercidos em detrimento do exercício de outros valores jurídicos – em verdadeira configuração do abuso de direito

Em todas essas situações, a reação conservadora se confunde com um tom religioso de preservação de determinados valores que seriam essenciais à dogmática religiosa – o que, no entanto, não corresponde com a verdade.

Primeiramente, cumpre ressaltar que a religião, desde os primórdios da humanidade, ajudou as sociedades a se organizarem, além de ser um dos meios de exercício da “espiritualidade”. No entanto, como qualquer outro fenômeno humanístico, a religião é formada por homens, e muitas vezes foi utilizada para justificar a prática de agressões (da santa inquisição na Idade Média, ao terrorismo baseados no fundamentalismo islâmico atual).

Hoje, esse cenário não é tão diferente, em especial na prática homo/lesbo/transfobia que se baseia em falsas premissas religiosas. Nesse ponto, cumpre esclarecer a “fobia” do termo não se refere necessariamente à violência física, mas envolve também condutas hostis decorrentes dessa aversão enraizada na sociedade, e não na religião.

O único trecho bíblico utilizado para considerar abominável a homossexualidade é o livro “Levíticos”, do antigo testamento. Escrito há mais de dois mil anos (traduzido e reinterpretado incontáveis vezes), também contém vedações a respeito do consumo de carne suína, bem como sobre a utilização de tecidos de diferentes materiais como vestimenta. No entanto, somente a homossexualidade é referida como prática abominável. Em sentido oposto, há o exemplo de Cristo, reportado na mesma bíblia, na defesa de grupos à época segregados (prostitutas, mendigos e leprosos), o que incluiria, nos paralelos de hoje, a população LGBT.

Assim, é notória a falta de honestidade e de coragem desses “líderes” ao se utilizarem do discurso religioso para se protegerem de eventuais críticas. Revestidos sobre o manto da religião, acabam gozando de uma espécie de passe livre para reafirmar essa aversão (‘fobia’), além de estarem ‘imunes’ às críticas de homofobia, quando qualquer crítica ao seu discurso passa a ser uma crítica à sua religião (criada a alcunha ”cristofobia”).

Essas posições além de fortalecerem o estigma que vê a população LGBT como abominação, acabam obstruindo a desconstrução do ideal heteronormartivo fortemente enraizado na sociedade. De outro modo, também dificultam uma discussão mais racional a respeito do tema, uma vez que a religião envolve o exercício da fé (de natureza mais subjetiva).

No fim, o que resta é a covardia dos que usam o nome de Deus em vão (em violação a um dos 10 Mandamentos), para justificar o preconceito ao invés do amor ao próximo

Gabriel da Silveira Mendes é Procurador do Estado de São Paulo e membro do grupo Olhares Humanos.
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