Quem são os homens estupradores?
Terça-feira, 31 de Maio de 2016

Quem são os homens estupradores?

“Nem todos os homens” é o slogan de alguns homens inquietos com a mobilização feminista em redes sociais e nas ruas em resposta ao caso recente da adolescente de 16 anos estuprada por três dezenas de homens no Rio de Janeiro. Um estupro com 33 agressores são 33 chances perdidas de estranhar a barbárie e interromper a violência. Nos espanta muito, mas não acreditamos em loucura coletiva, nem em natureza violenta de machos. Nos organizamos e lutamos para sobreviver ao regime do gênero que torna homens – assim, no plural – estupradores e agressores de mulheres.

Mas o plural da violência masculina perturba alguns homens, talvez mais até do que a própria violência. Até não duvidamos quando nos dizem: “há homens que estupram, mas não eu”. Pelejamos com a linguagem e falamos em cultura do estupro para lembrar que, junto com a alta incidência de violência sexual contra meninas e mulheres, há resistência de governos, escolas e famílias em debater educação sexual e consentimento, há polícia e judiciário que suspeitam de mulheres vítimas, há comediantes que pretendem rir da opressão, há marcas que querem lucrar com a despossessão de corpos femininos, há cumplicidade masculina sobre práticas violentas compartilhadas entre amigos.

As mulheres explicam muito. Os homens ouvem pouco. Esforçam-se pouco para entender que a singularização da violência não nos protege, apenas disfarça sua origem. Parecem supor que haveria um traço distintivo que distinguiria homens violentadores dos pacíficos. Gostaríamos que houvesse, mas não há. Quem são os homens estupradores? Há os desconhecidos nas ruas desertas, sim. Mas também há pais, padrastos, tios, primos, avôs. Maridos, namorados, ex-companheiros. Treinadores, médicos, pastores. Colegas de faculdade, chefes, vizinhos.

É hora de entender: não estuprar não é suficiente. Não bater não é suficiente. Não xingar não é suficiente. Não compartilhar vídeos violentos não é suficiente. Mulheres e meninas lutam para sobreviver ao patriarcado estuprador. Para fortalecer a luta, homens pacíficos têm que oferecer mais do que o mínimo, mais do que o óbvio.

Sinara Gumieri é advogada e pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética. Este artigo é parte do falatório Vozes da Igualdade, que todas as semanas assume um tema difícil para vídeos e conversas. Para saber mais sobre o tema deste artigo, siga https://www.facebook.com/AnisBioetica.
Terça-feira, 31 de Maio de 2016
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