“Não temos ferramentas para nos reabilitar e voltarmos ao convívio da sociedade”
Segunda-feira, 6 de junho de 2016

“Não temos ferramentas para nos reabilitar e voltarmos ao convívio da sociedade”

Estou nesta unidade a quase oito anos, e desde que cheguei aqui já mandei diversas cartas pedindo apoio e atenção ao que realmente se passa dentro do Sistema Penitenciário do estado de São Paulo.

Nesta unidade, tenho direito a 3 horas de sol durante 6 dias da semana. Passo, todos os dias, 21 horas dentro de uma cela com mais 5 detentos, com apenas uma televisão. Não podemos fazer artesanatos, não temos jogos distrativos e muito menos algum tipo de curso. Em resumo, não temos ferramentas para nos reabilitar e voltarmos ao convívio da sociedade.

Em meu caso, não posso ter visitas de meus familiares, pois a unidade não dispõe de recursos para auxiliar o preso e sua família. Quando eu tenho visita de minha mãe e irmã, uma vez por ano, elas são obrigadas a passar por diversos tipos de constrangimentos, tanto na revista, quanto na espera, porque são obrigadas a ficarem mais de 5 horas em um galpão sem nenhuma higiene e trancadas. Depois, são conduzidas por homens encapuzados com armas pesadas e com cachorros ferozes para entrar na cela junto comigo e, assim, permanecem trancadas dentro de uma cela de 4 metros por 5, com mais sete ou oito pessoas, dependendo de quantos visitantes tiverem na cela.

Se algum familiar ou preso passar mal dentro da cela, demora mais de uma hora até algum funcionário vir para ver o que está acontecendo; depois mais uma ou duas horas para levar para ser atendida. Se depender de um atendimento rápido, a pessoa falecerá aqui dentro, assim como já ocorreu tanto com familiares de presos e com os próprios presos.

Aqui já fui vítima de espancamento por parte do grupo GIR, que são homens encapuzados e armados.

Não estou querendo regalias, mas apenas buscando uma atenção ao que realmente ocorre dentro desta unidade. São diversos tipos de descasos, negligências, opressões que estão acontecendo.

Estou à disposição para relatar mais sobre o que realmente se passa aqui dentro, caso alguém se interesse em saber.

Até então agradeço muito por ouvirem um pouco da realidade daqui de dentro e o descaso do governo paulista com o sistema penitenciário de São Paulo.

Flávio Gonzaga* é colunista por um dia na coluna Cartas do Cárcere. A coluna mostra relatos semanais de pessoas que vivem (e morrem) no sistema prisional brasileiro.
*Todos os nomes desta coluna são fictícios para preservar a identidade dos apenados


Quem se interessar em enviar cartas para a coluna encaminhar para a Redação do Justificando

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Segunda-feira, 6 de junho de 2016
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