As cinquenta orquídeas de Orlando
Sábado, 18 de junho de 2016

As cinquenta orquídeas de Orlando

Aos 34 anos, o agente de viagens Edward Sotomayor Jr. não poderia imaginar que morreria com um tiro dilacerante em suas costas. Ninguém imagina morrer aos 34 anos.

Eddie foi atingido enquanto arrastava seu companheiro pela saída de emergência da boate Pulse, em Orlando. Era dia 12 de junho, data em que se celebra o amor em muitos países. Um dos símbolos da mitologia que representa o amor e a paixão é Eros, simpaticamente retratado como aquele anjinho alado que flecha as pessoas e desperta nelas o encantamento comovente desse revolucionário sentimento.

O tiro pelas costas – não mais uma inocente flechada – é uma triste metáfora do amor nos tempos da cólera em que a humanidade se vê metida e, de certa forma, em que o Brasil se vê às voltas. Por lá, Donald Trump. Por aqui Bolsonaro, Marcelo Rezende, Sherazade, Temer e Cunha são porta vozes do discurso que dissemina o ódio, o preconceito e a indigência ética que vitima simbólica e concretamente mulheres, gays, índios e jovens pobres e negros.

Foi Raduan quem disse que palavra é uma semente que traz vida, mas pode trazer, inclusive, uma carga explosiva no seu bojo. Esses cavaleiros do apocalipse vez ou outra lançam frases como “não te estupro porque você não merece”, “tá com dó, leva para casa”, “tchau, querida”, “se ele atirou é porque o bandido tava armado. E ele fez muito bem”. Ao mesmo tempo, o protagonismo que esses grupos políticos assumiram no Brasil, ocupando cargos de relevância, leva a que esse discurso ganhe forma concreta na interrupção de políticas públicas, corte de ministérios e na aprovação de projetos de lei com claro conteúdo homofóbico, misógino e machista.

O amor não existe sem alteridade

Ao explicar para um grupo de jovens que a falta de controle quanto ao uso de armas nos EUA não guarda relação com o massacre de Orlando, Bolsonaro disse que “quem mata é a pessoa e não a arma”. Esquece que as palavras que disseminam o ódio também matam e que, ao louvar um torturador e estuprador do porte de Brilhante Ustra por ele ter sido o “pavor” da presidenta Dilma Rousseff, não só puxa o gatilho junto, como estimula a que novos sejam puxados.

Clarice Lispector escreveu o conto “Mineirinho”, nome de um bandido que foi assassinado pela polícia com 13 tiros:

“(…) no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro”.

“Porque eu sou o outro, porque eu quero ser o outro”. Talvez esteja nessa frase o dilema central dos tempos atuais em que pessoas são assassinadas enquanto tentam, de alguma forma, salvar a quem se ama das balas do ódio, preconceito e incompreensão, justamente no dia que era para o amor ser celebrado. É a questão da alteridade ou da sua ausência que tem permeado ações políticas, discursos e ações violentas contra o outro ou a outra.

O amor não existe sem alteridade. Che Guevara dizia que todo o verdadeiro revolucionário é movido por grandes sentimentos de amor. Não há transformação política, assim como não há revolução individual sem grandes doses de amor e, para amar, é preciso ser o outro, sem perder a própria individualidade, mas se colocar no lugar do outro.

Boff diz com precisão que “diante do outro ninguém pode ficar indiferente. Tem que tomar posição. Mesmo não tomando posição, silenciando e mostrando-se indiferente, já é uma posição”. E a ética surge quando o outro “emerge diante de nós”.

Assim, quando Trump dá como resposta ao massacre de Orlando o fechamento dos EUA à entrada de muçulmanos, toma posição diante do outro e o trata como inimigo. Dois dias depois da Suprema Corte daquele país decidir que casais formados por pessoas do mesmo sexto têm o direito constitucional de se casar, Trump afirmou à CNN que é a favor do “casamento tradicional”. Questionado se é “tradicional” se casar três vezes, argumentou que teve três ótimas esposas, mas se culpa por “trabalhar tanto”.

Semanas após o ataque à igreja frequentada pela comunidade negra de Charleston, na Carolina do Sul, em que um jovem branco matou nove afro-americanos, Trump afirmou que a juventude negra “não tem espírito” e que assassinatos ocorrem a cada hora em diversas cidades.

São essas palavras agressivas, assim como agressivas são as palavras dos exemplares brasileiros do ódio que estão cada vez mais frequentes. Alguém disse que os idiotas perderam a modéstia, mas é pior que isso. Quando não existe qualquer constrangimento em defender o aniquilamento do outro é sinal de que entramos em um espiral perigoso, cujos resultados são imprevisíveis.

***

No dia em que 50 pessoas perderam a vida na boate Pulse, eu estava em um orquidário e me pus a pensar na hipótese de alguém entrar ali e começar a pisar naquelas flores, uma por uma, a ponto de destruí-las. Brancas, rosas, amarelas, brancas e amarelas, rosas e brancas, brancas e amarelas, aquelas orquídeas poderiam ser cada uma daquelas pessoas, e essa união de cores poderia representar as inúmeras formas de amor. Cada uma delas leva 3 ou 4 anos para florescer. Assim como o ser humano pode levar décadas para aprender a amar, florescer e se colocar no lugar do outro.

As mortes na boate de Orlando agridem, vilipendiam, chocam e aturdem. Dão-nos a exata medida da decadência humana. Lá, como aqui, há quem dissemine o ódio, intolerância e violência contra quem pensa ou ama de uma forma diferente da sua.

Dois dias após o massacre, se viu um arco-íris no céu de Orlando. Muita gente deve ter passado por ali e nem se dado conta, assim como há quem diga que quem mata é a pessoa e não a arma. Mas se é possível encontrar alguma esperança em meio a tanta desesperança, talvez esteja na possibilidade, ainda que utópica, de que ao pé dessa imagem esteja não um pote de ouro, mas Edward Sotomayor Jr e seu amado.

Estão ali ao pé das cores todas para mostrar a cada um e cada uma de nós que o amor é capaz dos gestos mais belos, mesmo que em meio à covardia e violência das balas reais e imaginárias que nos ferem dia pós dia. Palavra após palavra.

Patrick Mariano é escritor.
Junto a Marcelo Semer, Rubens Casara, Márcio Sotelo Felippe e Giane Ambrósio Álvares, assina a coluna ContraCorrentes, publicada todo sábado no Justificando.
Sábado, 18 de junho de 2016
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