O descaso e o oportunismo da “esquerda branca” com as questões raciais
Segunda-feira, 8 de agosto de 2016

O descaso e o oportunismo da “esquerda branca” com as questões raciais

A esquerda branca insiste em não discutir o próprio racismo e sexismo que carrega. Em suas pautas, o foco é atacar o governo golpista; mas, na ânsia de se fazer ouvir, põe em prática uma das atitudes que mais evidenciam racismo: o que chamamos de token, ou uso indevido e mal intencionado da imagem, presença, pautas e mazelas de pessoas negras com o intuito de convencer a si e a outros de que não é racista. Dessa vez, os resultados foram, no mínimo, abomináveis, pois coloca em cheque uma conquista do Movimento Negro que sequer foi aceita pela sociedade da falsa democracia racial, a tão deturpada quanto importante cota racial em concursos públicos.

Todos nós, negros e negras que lutamos por paridade de oportunidades, repudiamos essa atitude de racismo e desinformação por tratar-se de um desserviço e principalmente de um desrespeito a nossas tão sofridas conquistas.

O alarde feito perante a portaria lançada na terça-feira (2) pelo Ministério do Planejamento, que estabelece a verificação de autodeclaração racial por meio de uma comissão deliberativa, só evidenciou mais uma vez como a branquitude brasileira se incomoda com avanço dos "outros". Vozes para defender a tal "democracia" não faltaram, de jornalistas da "Falha" de SP à mídia 'alternativa' no corpo de Jornalistas Livres, passando por Sakamoto e Maria Frô. No afã de salva-guardarem a população preta da malfadada notícia via governo golpista, a esquerda branca não se deu ao trabalho de fazer uma busca na internet só pra contextualizar – a si mesmos, primeiramente – antes de disseminar equívocos contraproducentes. E não bastou o movimento impulsivo, teve que rolar comparação ao nazismo e ao apartheid na África do Sul. Pois é, minha gente, desonestidade intelectual é a certeza da palavra escrita sem imaginar que seria interessante uma consulta básica à situação atual das cotas raciais.

Estive analisando todos os textos publicados e o mote contrário à portaria supracitada recaiu sempre nas pessoas pretas, como escreve Maria Frô em seu blog? "(…) Os golpistas não querem de modo algum que tenhamos funcionários públicos negros servindo o Estado na mesma proporção que existe de pessoas negras na sociedade brasileira.(…)" deixando nítido seu deslocamento com a pauta em questão. Muito além disso: levando à reboque a luta do Movimento Negro para aplicação e verificação do sistema de cotas raciais.

Engraçado é que ninguém, nenhuma autora ou autor, sequer fez menção ao fato das pessoas brancas estarem se utilizando de um recurso destinado à população preta. Menos ainda se lembraram de questionar que são essas pessoas usurpando vagas destinadas a pretos é que deveriam sofrer sanções, e não o contrário.

Nesse ponto, para elucidar minha crítica e quem sabe me fazer entender melhor, busco em Liv Sovik um abraço de lucidez:

"(…) No Brasil, particularmente, a prática social do branco está permeada por discursos de afeto, que aparentemente religam setores sociais desiguais, mas a hierarquia social continua vigente e, em um conflito eventual, ela reaparece, enfraquecendo a posição de pessoas negras. O valor da branquitude se realiza na hierarquia e na desvalorização do ser negro, mesmo quando "raça" não é mencionada. A defesa da mestiçagem às vezes parece uma maneira de não mencioná-la. A linha de fuga pela mestiçagem nega a existência de negros e esconde a existência de brancos.(…)"

Seu texto, extremamente atual, parece que foi escrito para o momento político tão importante e ao mesmo tempo tão frágil no qual vivemos. Reivindica que não há a necessidade de avaliação por fenótipo daqueles e daquelas que não se enxergam como pertencentes à branquitude e que, nesse momento, sacodem o tapete cheio de poeira evocando uma ancestralidade que não condiz com a sua aparência.

"Ninguém é branco no Brasil" foi a frase argumentativa que mais se encontra nas matérias. Levantamento de DNA e ancestralidade também bateram cartão em uma delas, bem ruinzinha, publicada na "Falha" de SP.

Somos todos mestiços para acessar cargos públicos e vagas em universidades públicas. Aí reside o afeto de buscar na colonialidade o reformulado, então, mito da democracia racial tão presente na sociedade brasileira, em que brancos desfrutam os privilégios de serem brancos quando querem – até mesmo quando se dizem pretos -, e não aceitam quando são colocados na berlinda. Quem tem medo da comissão avaliadora de fenótipo?

Sovik novamente me emociona quando elucida a consciência racial branca:

"(…) A branquitude é atributo de quem ocupa um lugar social no alto da pirâmide, é uma prática social e o exercício de uma função que reforça e reproduz instituições, é um lugar de fala para o qual uma certa aparência é condição suficiente. A branquitude mantém uma relação complexa com a cor da pele, formato de nariz e tipo de cabelo. Complexa porque ser mais ou menos branco não depende simplesmente da genética, mas do estatuto social. Brancos brasileiros são brancos nas relações sociais cotidianas: é na prática – é na prática que conta – que são brancos. A branquitude é um ideal estético herdado do passado e faz parte do teatro de fantasias da cultura de entretenimento. (…)"

E é justamente pela branquitude teimar em não se reconhecer nas práticas sociais como tal, que fica buscando em sua linhagem de DNA a porcentagem africana ou 'ameríndia' (como convencionou o jornalista), para ridiculamente sugerir solução a essa questão toda. Das duas, uma: podemos acabar com as cotas raciais (já que ninguém reconhece que os brancos é que configuram a "falha" no sistema) ou aplicar cotas sociais. Um gênio do retrocesso! Fora da casinha é o termo que muito se adequa a esse tipo de jovem que não sabe o que está falando.

Aproveitando o momento, respondo a algumas indagações do jornalista Sakamoto. Não serão os membros deste governo golpista a se sentar nas comissões avaliativas de fenótipos dos concursos públicos, querido; sugiro a você buscar pelo histórico e atualidade das cotas raciais para saber em que pé estamos, mas vou te dar um exemplo: no IBGE, órgão federal, uma comissão já foi construída num concurso efetivo recente, inclusive vetando um homem não negro a acessar um cargo através das cotas raciais. Essa comissão foi composta de 3 funcionários efetivos do quadro do próprio instituto: 2 pessoas negras e uma branca, duas mulheres inclusive. Não foi nenhum golpista que apareceu lá do nada, desavisado e deu seu parecer, viu?!

Breaking news! Já existe uma escala de cores muito bem definida no Brasil, mas você está por fora. Quem é claro não tem a mesma chance de morrer do que tem aquele que é escuro – pelas mãos da polícia militar, por exemplo. A escala é de cores e é decrescente: do maior para o menor, em que o maior é branco e o menor é preto, em que a vida do branco importa e a vida do preto não. Essa é a escala de cor em amplo funcionamento no Brasil há, sei lá… uns 358 anos, basicamente! Não atoa que as pessoas em condições análogas à escravidão são majoritariamente pretas, não é? E que a cada 23 minutos um jovem preto é morto. E é crescente o assassinato de mulheres pretas, 54%! A escala funciona assim, e até mesmo para quem fica meio lá, meio cá, o sistema sabe como nos diferenciar e delega humanização maior ou menor a depender exatamente do seu fenótipo! Dos seus traços faciais e corpóreos. Ninguém pede xérox de árvore genealógica antes de te preterir ou de te bonificar por algo.

Paulino, Rosana. Série Bastidores. (Xerox transferido sobre tecido, com bordados), 31,3 cm x 310x 1,1 cm. 1997.

Parafraseando Sovik, é na genética que somos todos mestiços, e não na prática social. Nesta, só se desfruta de um bem viver, livre de humilhação e assassinato, quem é branco; é na prática social que foram estabelecidas as identidades raciais forjadas no bojo da escravização de pessoas negras, é na prática social que vocês, brancos, se eximem do auto-reconhecimento racial como branquitude, e continuam contribuindo para o racismo institucional e, ainda por cima, ficam tranquilos jogando areia nos nossos olhos, pisando nas nossas trajetórias e ignorando nossas demandas.

Vocês são brancos e assim querem se manter, e ainda tem a pachorra de usar nossa luta, nossa dor, em vão, para criticar governo golpista que não precisa de pretos sendo manobrados para reforçar a ilegalidade desse governo interino – ele já o é por si só! Essa medida não nasceu neste governo, tampouco será retirada! Sou totalmente contra esse governo impostor. Mas é preciso lembra-los, ilustríssimos, que o Movimento Negro está vigiando o sistema de cotas como quem vigia o berço da criança amada: é preciso um fôlego olímpico no revezamento de cuidados para ninguém toma-la de nós, como costumeiramente vocês sabem fazer, simbólico e fisicamente.

Se responsabilizem por aquilo que vinculam, não sejam desonestos, e, por favor, aprendam a usar o google! Não antes de se reconhecerem e se conscientizarem que pertencem a uma branquitude brasileira, combinado?

Sigamos.

[SUGESTÃO DE LEITURA]

1) O branco-objeto: O movimento negro situando a branquitude por Lourenço Cardoso 

2) Branquitude X Branquidade: Uma análise conceitual do ser branco por Camila Moreira de Jesus 

3) Aqui ninguém é branco: hegemonia branca no Brasil. (2004) por Liv Sovik. (livro)

4) Entre o "encardido", o "branco" e o "branquíssimo": Raça, hierarquia e poder na construção da branquitude paulistana por Lia Vainer Schucman

5) Pontuações e proposições ao branco/a e à luta antirracista:
ensaio político-reflexivo a partir dos estudos críticos da
branquitude por Joyce Souza Lopes 

Jéssica Ipólito é ativista feminista e autora do Blog Gorda e Sapatão.
Segunda-feira, 8 de agosto de 2016
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