A vitória de Rafaela denuncia o racismo que tem inviabilizado a justiça e igualdade no Brasil
Terça-feira, 9 de agosto de 2016

A vitória de Rafaela denuncia o racismo que tem inviabilizado a justiça e igualdade no Brasil

“O racismo é uma experiência visceral, que desaloja cérebros, bloqueia linhas aéreas, esgarça músculos, extrai órgãos, fratura ossos, quebra dentes”[1]. A vitória da judoca brasileira Rafaela Silva nas Olimpíadas do Rio de Janeiro revela que, de fato, o racismo não é somente uma interdição a trajetórias positivas de pessoas negras. O racismo mata, adoece, machuca milhares e milhares de pessoas todos os dias de forma muitas vezes irreversível.

Não há como não se emocionar diante das palavras da jovem negra carioca que já foi vítima de violentos ataques racistas. Nas olimpíadas de Londres, em 2012, Rafaela foi eliminada e, em seguida, foi vítima de uma série de ataques pela internet sendo chamada de macaca, de vergonha nacional. A resposta da atleta veio quatro anos depois no melhor estilo. Com trabalho, Rafaela alcançou o lugar mais alto do pódio em 2016 e sagrou-se campeã olímpica no Judô, uma linda imagem produzida sempre que deixamos brotar talentos e deixamos as possibilidades se realizarem.

“Depois da minha derrota, muita gente me criticou, disse que judô não era para mim e que eu era uma vergonha para a minha família. Agora eu sou campeã olímpica dentro da minha casa (…). Eu treinei muito para estar aqui, muito para buscar a minha medalha”[2]

“A macaca que tinha que estar na jaula hoje é a campeã olímpica”[3], sentenciou a jovem não deixando dúvidas de que aquele foi apenas mais um dos muitos episódios de discriminação racial que ela teve que enfrentar. O dia a dia de Rafaela, assim como o de qualquer pessoa negra numa sociedade brasil, certamente é marcado pela permanente luta contra o preconceito e a discriminação racial.

Contudo, o caso de Rafaela diz muito mais sobre o Brasil e sobre o seu perverso modelo de relações raciais. A prática de sepultar trajetórias, aniquilar biografias, interditar sonhos e possibilidades é a regra neste país que se especializou em viver de desigualdades. Basta a vitória de uma pessoa negra para que o discurso da superação tome conta do cenário e para que rapidamente se passe a uma retórica do elogio à superação e ao esforço individual da brilhante esportista, pouco se reflete sobre as estruturas políticas que fazem com que histórias como essa não passem de exceções à regra macabra da exclusão e da desigualdade racial.

As sutilezas do modelo de relações raciais brasileiro têm se aperfeiçoado na mórbida tarefa de impedir que negros e brancos compartilhem igualmente dos direitos e benefícios da vida em sociedade. A circulação, a convivência e a representação pública das pessoas negras é sempre mediada pela suspeita da inaptidão e do fracasso, por isso, a derrota de Rafaela em 2012 e a sua vitória em 2016, dizem muito sobre o que se espera de pessoas negras quando elas estão submetidas a posições de concorrência e de tensão.

A vitória e o sorriso (lindo) de Rafaela não são a celebração de um pacto da brasilidade unificada e nem o festejo genuíno do espírito olímpico remido de seus males, pelo contrário, a vitória de Rafaela é a denúncia de que é o racismo que tem inviabilizado a concretização de qualquer projeto de justiça e igualdade no Brasil. A alegria da judoca, de sua mãe e dos seus amigos da Cidade de Deus revelam que a medalha que hoje é festejada como “medalha do Brasil”, é, na verdade, uma medalha conquistada apesar do racismo do Brasil e de muitos brasileiros e brasileiras.

Portanto, celebremos as Olimpíadas e suas vitórias, mas, não deixemos de pensar o quanto de violência e discriminação existe em cada gota de lágrima derramada pelos atletas. Sem dúvida o racismo e as desigualdades raciais são elementos importantes para entender o baixo desempenho do Brasil nos esportes olímpicos e em tantas e tantas outras áreas, não deixemos esta questão passar em branco.

Felipe da Silva Freitas é doutorando em direito pela Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador do Grupo de Pesquisa em Criminologia da Universidade Estadual de Feira de Santana (GPCRIM UEFS).
Foto: Roberto Castro/2016

[1] COATES, Ta-Nehisi. Entre o mundo e eu. São Paulo: Objetiva, p. 21.
[2] http://sportv.globo.com/site/programas/rio-2016/noticia/2016/08/rafael-silva-lembra-que-foi-chamada-de-vergonha-da-familia-antes-do-ouro.html
[3] http://olimpiadas.uol.com.br/noticias/redacao/2016/08/08/aos-prantos-rafaela-desabafa-me-disseram-que-eu-era-uma-vergonha.htm
Terça-feira, 9 de agosto de 2016
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