Duas rosas do deserto
Segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Duas rosas do deserto

Na quarta-feira (31) o Brasil se tornou um grande deserto. Um imenso Saara em cujas terras pouco ou quase nada floresce. Depois de anos de crescimento contínuo e estimulado do ódio, intolerância e criminalização da política, 427 parlamentares, em sua maioria brancos, com problemas na justiça, ricos e homens, sem provas, condenaram uma mulher injustamente.

Do Senado se dizia ser um ambiente diferente ao da Câmara, que haveria debate e que as provas seriam discutidas, mas o que se viu por lá não ficou nada a dever ao espetáculo tétrico comandando por Eduardo Cunha no dia 17 de abril.

A ordem para que a polícia retirasse do plenário do Senado um deputado, feito pelo senador Aloysio Nunes, se assemelha ao voto dedicado ao torturador Brilhante Ustra na Câmara. Verdadeiras odes ao autoritarismo e violência, comportamento típico de quem não nutre qualquer apreço ao regime democrático.

O árido momento político brasileiro possibilitou esse inusitado encontro entre Bolsonaro e Aloysio Nunes, personagens com histórias distintas, mas que se deram as mãos para condenar, sem provas, uma mulher íntegra.

Enquanto isso acontecia em Brasília, cadernos de estudantes foram revistados pela Polícia Militar de São Paulo que protegeu manifestantes pró-impeachment e soltou bombas e tiros em quem denunciava o golpe. Se o fascismo viceja em momentos de indigência ética e o deserto se torna campo propício para o seu desenvolvimento, na África e na península arábica há uma flor que se chama rosa do deserto. Ontem (30.08), em Brasília, ela floresceu.

A ex-Vice-Procuradora-Geral da República Ela Wiecko é uma dessas rosas que florescem no deserto. A sua dignidade cidadã é muito maior que o cargo que ocupava. Sua postura deu ao Brasil um sopro de esperança, acalanto em meio à tragédia social que se anuncia. Esta altivez não vem de hoje. Como professora, Ela Wiecko é uma das maiores crimonólogas da américa latina e, como procuradora, defendeu como poucos a causa indígena, da reforma agrária e dos direitos humanos. Rosa no deserto.

Outra rosa que floresceu no deserto foi Dilma Rousseff. Altiva, encarou seus algozes olhando nos seus olhos. Macabros personagens que até pouco tempo a paparicavam e cortejavam, como o fazem há séculos.

Foram quatrocentos e vinte e sete contra cinquenta e quatro milhões e quinhentos mil votos, o que dá a exata dimensão da fragilidade democrática brasileira. Democracia sequestrada, amputada pelo capital, como já alertava José Saramago.

Dilma e Ela Wiecko poderiam ter se encontrado antes. Seria a primeira mulher a comandar a Procuradoria Geral da República. Com quase a mesma votação de Rodrigo Janot na lista tríplice, a presidenta preferiu reconduzi-lo ao posto. Janot referendou o vazamento criminoso dos seus áudios privados com o ex-presidente Lula, um dos pontos chaves para o golpe, e coadunou com seu indiciamento por obstrução da justiça sem base legal. O Brasil está no 153° lugar no ranking que mede a representatividade feminina na política. O Afeganistão, que de 1996 a 2001 viveu sob regime Talibã ocupa o 50° lugar. Mulheres eram proibidas de ir à escola, não participavam de decisões políticas e tinham que andar cobertas da cabeça aos pés.

A primeira constituição afegã que defendeu alguns direitos iguais a homens e mulheres foi promulgada em 2004: há apenas 12 anos as afegãs votam e são votadas.

Comecei o texto com intenção de comparar o julgamento da Dilma Rousseff por aqueles tétricos homens à realidade e drama pelo qual passam as mulheres afegãs, mas não seria válido. Ignorante, não sabia que lá, as mulheres ocupam mais espaço na política e parecem ser mais respeitadas neste quesito.

A única comparação possível é quanto ao deserto. Só que lá o deserto é uma realidade da natureza, aqui, da política.

Patrick Mariano é escritor. Junto a Marcelo Semer, Rubens Casara, Márcio Sotelo Felippe e Giane Ambrósio Álvares, assina a coluna ContraCorrentes, publicada todo sábado no Justificando.
Segunda-feira, 5 de setembro de 2016
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