Os poderosos generais de jardim
Quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Os poderosos generais de jardim

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Os generais de jardim, tão valentes quanto sem vida, generais de pombos, generais de latão, com direito a uma placa enferrujada, que sequer conta quantos ele matou ou mandou matar. Generais de pombos e cagados, soltos no tempo e no espaço. Generais rotos.

Ando por um corredor imaginário do Tribunal e bustos de bronze vigiam os passantes; a todos uma característica comum: os bustos não possuem olhos, são como os cegos da praça, que sentem os passos de cada frequentador.

Todos foram gloriosos em suas glórias pessoais, tanto que, depois de mortos, foram lembrados em bustos de bronze, feitos a partir de fotos em que estivessem, como pediram para ser lembrados, graves, sérios, sem sorrisos, “reservas morais”, que continuasse a vigiar os mortais vacilantes.Quem se deu conta, em vida, de ser uma reserva moral? Como seria, acordar, de manhã, uma reserva moral?

Uma reserva moral, no sentido que lhe dão os mortais comuns, é aquela pessoa profundamente religiosa, profundamente católica, profundamente pontual em seus compromissos econômicos, profundamente temido por seus adversários, profundamente conservador, profundamente saudoso de um passado difuso, em que havia “mais respeito e mais ordem”, quando havia verdadeiramente respeito dos mais jovens, enfim, de uma sociedade profundamente patriarcalista.

O reserva moral é senhor absoluto da verdade, ainda que a verdade lhe seja convenientemente mutável, as paredes o temem. Ao reserva moral bastam suas convicções. Provas são dispensáveis porque ele paira acima da realidade porque suas convicções sobram. Só pode ser reserva moral quem for implacável com seu semelhante, quem tiver balas de prata a distribuir aos inimigos que perseguirá uma vida inteira.

Um dia – sempre há este dia – ele se aposenta ou encerra seu mandato. O Procurador Geral, que cortava cabeças com suas flechas e bambus de aço, vai perdendo sua importância; lentamente vai se desumanizando, até se tornar estátua, busto, nome gravado em alguma placa perdida nas paredes de burocratas poderosos.

No parque, as crianças brincam entre pombos, balanços, gangorras, areias, baldinhos; os generais, ninguém sabe mais seus nomes ou que guerras venceram, que inimigos frágeis destruíram, quantos índios mataram, quantos negros mandaram à morte na Guerra do Paraguai. Uma placa carcomida pela chuva e coberta de merda de passarinhos esconde quem foi, quando morreu, quando nasceu.

O Procurador Geral está à espera de sua foto na galeria dos burocratas que um dia mandaram e desmandaram, que sabia intuitivamente que a ordem jurídica era frágil e que nós, brasileiros médios, fiéis espectadores do Jornal Nacional, adoramos ser mandados à merda com nossos direitos individuais. Nós valorizamos sempre aquele que chutou a porta, que mandou atirar, mandou prender, adoramos essa falsa virilidade de quem se apresenta como uma espécie de macho-alfa.

Andamos em rebanhos, somos bovinamente guiados e/ou de um macho ou de uma matriarca, arbitrários, mas amorosos, cruéis, mas corretos economicamente, incapazes de subtrair um real de uma velhinha ou de feirante, mas de espancar com gosto, descer o chicote com gosto. Adoramos todos aqueles que nos sequestram em nome da lei, seja lá que lei for, ainda que seja uma que somente exista na cabeça do burocrata empoderado.

 

O que ele não sabe é que será, como tantos generais de lata, esquecido, antes mesmo de ser lembrado.

 

Não foi à posse, já que não era ele o centro de gravidade do Universo, afinal; tentou com um gesto espetacular, coisificar sua ausência, torná-la presente, tão presente que, ausente, todos o vissem, todos o aplaudissem. Imaginou a grandiloquência de sua ausência. Sonhou com ela, passou noites em claro, imaginando as pessoas, o cenho franzido, sua ausência subindo pelas paredes, ele, o reserva moral, cuja ausência constrangeria a tudo e a todos, cuja ausência faria quieto o auditório e os convidados aristocráticos, escolhidos a dedo por cerimoniais majestáticos. Nada. Nada. Nada. Em meio aos canapés, nada. Seus acólitos foram, um a um, sendo apeados, recolhidos às covas rasas de onde teriam saído.

Não foi e parece não ter feito falta. Não fazer falta é o plot-point do esquecimento, é a cama de ferro do reserva moral, que há de vagar, à deriva, em suas próprias elucubrações.

Preso no seu pesadelo, ele pensa nos generais cagados da praça, na placa de nome de rua, na foto preto e branco, na parede dos ninguéns inesquecíveis, mas só consegue visualizar a si mesmo, só consegue visualizar o que não foi, aquele que jamais poderia ter sido.

Na fila de embarque, confere a poltrona e o documento de identidade. De calças jeans, camiseta e óculos escuros, não foi reconhecido, ninguém saberia que aquele cidadão ali, aquele, foi Alguma Coisa Geral da República, mas isso foi há muito tempo.

Ontem.

Roberto Tardelli é Advogado Sócio da Banca Tardelli, Giacon e Conway.

Quarta-feira, 20 de setembro de 2017
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