Os quatro juízes
Quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Os quatro juízes

Quatro bravos cariocas, juízes de direito, conseguiram o que pareceria impossível, nadar contra a corrente. Quando seus colegas saíram às ruas, vestidos com a camisa da CBF, quando faziam discursos em palanques contra tudo isso que está aí, contra a dissolução das famílias de bem, contra os direitos humanos que só protegem bandidos, quando desembargadores, presidentes de associação de classe de juízes e promotores de justiça animavam as massas de direita, quatro juízes subiram em palanque, desafiaram o senso comum e, de microfone na mão, pediram às pessoas que refletissem, pediram às pessoas que vissem que foi dado um Golpe de Estado. Quatro juízes, comprometidos com a Constituição, disseram ao povo o que já se sabia, foi Golpe.

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Juízes amordaçados

Como a todos, certamente a corrupção lhes toma o frescor da alma, mas é a desigualdade econômica que os aflige, os aterroriza, os desespera. A dura realidade, que os quatro juízes muito bem reconhecem. É por conta dessa desigualdade econômica atroz que os jornais abriram o dia paulistano com uma manchete aterradora: Jovem tem 17 vezes mais chances de morrer no Brás que na Vila Matilde.

Os quatro juízes cariocas, apenas um conheço pessoalmente, conseguiram rasgar a fumaça tóxica do preconceito e do punitivismo e disseram às pessoas que seus colegas juízes, que os promotores de justiça, a cada dia mais sanguinolentos, talvez estejam criando monstros, quiçá até para justificar a grana alta que recebem, ou para justificar o protagonismo que assumiram podem estar vendo fantasmas. O óbvio oculto é assim: torna a vida dezessete vezes mais arriscada para uns do que para outros. Difícil ver. Eles viram.

Nos Jardins, aqui em São Paulo, vive-se em média vinte anos a mais do que em Perus, periferia medonha da cidade. Vinte anos. Repito: vinte anos. Inacreditável: vinte anos! Fonte é o G1, insuspeito.

É preciso comprar ternos em Miami, disse um ex-presidente de tribunal, aqui em São Paulo, é preciso ter bons sapatos, é preciso ter bons carros, é preciso que tenham camarotes exclusivos, carros oficiais, lanches nababescos, tudo pago pelo contribuinte da Vila Matilde, mais do o fazem os contribuintes dos Jardins. É assim que se combate a corrupção! É assim que se tem vida boa no CNJ!

Cristiana Cordeiro, André Luiz Nicolitt, Rubens Casara e Simone Nacif pagarão porque conseguiram, além da nuvem de areia, ver o óbvio oculto e letal.

Eles precisam ser punidos. Pelo bem do senso comum, devem ser punidos. Pela vitória final da mediocridade, devem ser punidos. Para que o óbvio oculto seja banido de vez, devem ser punidos. Para que todos se tornem obedientes, devem ser punidos. Para que a verdade oficial nunca mais seja desafiada, devem ser punidos. A punição é muito mais voltada aos outros do que a eles, estejam eles certos disso.

O fato típico é esse: ver além do horizonte autorizado. Se essa moda pega, de repente coisas estranhas podem acontecer: uma Justiça verdadeiramente democrática, por exemplo.

Esses quatro são perigosíssimos.

Roberto Tardelli é Advogado Sócio da Banca Tardelli, Giacon e Conway.

Quarta-feira, 25 de outubro de 2017
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