Desafios impostos pela subjetivação das estruturas sociais
Sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Desafios impostos pela subjetivação das estruturas sociais

Imagem: Fernando Botero/Família presidencial (1967)

Acendemos paixões no rastilho do próprio coração. O que amamos é sempre chuva, entre o voo da nuvem e a prisão do charco. Afinal, somos caçadores que a si mesmo se azagaiam. No arremesso certeiro vai sempre um pouco de quem dispara. Cada Homem é uma Raça, Mia Couto.

 Mas a cegueira não é assim, disse o outro, a cegueira dizem que é negra. Pois eu vejo tudo branco”. (Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago).

Acredito que de tempos em tempos as dores do mundo visitam nossa alma. Mais especificamente, suponho que vez em quando ficamos circunstanciados por uma série de fenômenos (políticos, históricos, biográficos, afetivos, enfim, de múltiplas ordens) que conjecturam elementos de empatia, os quais permitem que visitemos algumas dores que habitam o mundo e que, até então, não nos compunham em maior extensão e profundidade.

Elas sempre circularam por aí, mas a cegueira normalmente é imposta pela fixação que desenvolvemos pelo próprio umbigo e pelo hábito de estarmos localizados em “sistemas” que, de tão fechados, tornam-se autorreferentes. Todavia, como conhecer o mundo senão a partir da nossa própria condição? Como transcender o self e atingir o geral? Nessa dicotomia toda filosofia perdeu-se e encontrou-se: o singular versus o universal, cabendo igualmente questionar a possibilidade da existência de dores e causas universais.

O conhecimento do mundo está sitiado na experiência primeira e singular de se constituir como indivíduo, o desafio imposto é o não-ilhamento em nós mesmos. É necessário ser ponte nesse arquipélago humano, estabelecer elos que permitam compreender e significar as inúmeras particularidades existenciais.

Foi no lastro da constituição do meu Eu em relação aos outros que as dores do mundo me visitaram. Frequentemente elas chegam, noutras elas se instalam. Preciso maturá-las. Ontem reconheci que estava sensível demais para algumas conversas e o limite foi escancarado quando, no salão, o cabeleireiro pediu emprestado meus ouvidos para contar histórias familiares e nelas existiam relatos sobre abusos. Eu soltei a palavra machismo e identifiquei que ela não se encaixava aos personagens com a perfeição que imaginei quando meu interlocutor esclareceu-me dizendo: “meu pai é tão matuto que sequer saberia o que é machismo, é tudo natural para ele”.

Essa constatação repercutiu nas minhas dolorosas conclusões sobre aquilo que julgo um dos nossos principais desafios: a subjetivação das estruturas sociais. Compõe o roteiro mais frequente falar sobre coisas como o direito feminino ao estudo, trabalho, igualdade no sentido amplo e não ignoro que algumas dessas demandas foram talvez superadas em trajetórias como a minha –  demarcada pela realidade de uma mulher branca, urbana, residente da capital brasileira, de classe média e acadêmica – e que, a despeito disso, o cenário de exclusões básicas persiste compondo a realidade de outras inúmeras mulheres.

Por esse motivo creio na permanente necessidade de vigilância e mobilização quanto aos pleitos que alguns julgam ultrapassados, afinal a ultrapassagem depende de um lugar de partida que não é o mesmo para todos. Dito isso, resta esclarecer que individualmente vamos trilhando batalhas e bandeiras numa trajetória muito particular e recentemente tenho me ocupado dos tecidos mais inconscientes que persistem até mesmo entre os que se pensam “esclarecidos”.

Coloco a mim mesma nessa cena; não me nego nessa contínua construção. Os caminhos mais íntimos onde o patriarcado se estabelece são hoje meus objetos de reflexão. Mais exatamente refiro-me aos territórios da afetividade, sexualidade e comunicação.

Ontem um amigo, que generosamente abrigou a minha angústia num abraço, disse que conhecia a “minha crise existencial” como sendo composta por uma natureza tipicamente pós-graduanda. Seria o custo do pensar, dizia ele. Em sua fala havia uma hipervalorização das capacidades mentais, quase que cumprindo o mapa cartesiano que dilacerou o ser integral e alocou nossas potencialidades em caixinhas onde as ações estão situadas potencialmente como racionais ou afetivas.

Ocorre que o ato de “pensar” não está dissociado do sentir.

Sobre a tão valorizada faculdade reflexiva baseada na apologia à razão destroçaram meus resquícios românticos, fato que suscitou o destronamento das principais promessas modernas. Ruíram em mim os vestígios iluministas que depositavam fé na evolução moral fundada na ação racional. Tratar-se-ia de incoerência ante a minha condição acadêmica? Talvez. Ou não. Não creio ser possível dissociar o pensamento racional de como nos sentimos, visto que ambos nos compõem de forma tão concatenada que a hipótese das caixinhas segregatórias, onde ora acessamos a mente, ora o coração, tornam-se absolutas ficções.

Nesse vai e vem entre pensamentos e sentimentos a respeito do patriarcado, ocorre ponderar sobre a particular condição das mulheres negras quanto a essas feridas. Se eu, que disponho de um lugar visivelmente prestigiado em comparação ao delas, sinto tudo isso e regurgito frequentemente o substrato da teia patriarcal, imagine como devem ser ainda mais profundas e dolorosas as chagas que compõem a experiência de ser negativamente racializada. Conheço o estigma de ser sexualizada, inclusive “ser mulher” foi o primeiro elemento que compôs a minha identidade; todavia não experimentei ser racializada, a despeito de branco também ser raça.

Refiro-me ao preconceito racial, visto que essa foi a dor que mais recentemente tomou assento em mim. Meu coração começou a reconhecê-la de uma forma nunca antes percebida. Interessei-me por entender essas transformações sob a perspectiva da sensibilização e ressignificação que ocorrem em cada um de nós. Nunca ignorei, tampouco fui indiferente à causa negra, mas atualmente ela se aconchegou de forma diversa, não está presente na via discursiva somente.

Cabe questionar os limites da experimentação e sensibilização racial fundada na perspectiva de uma pessoa branca ou, no caso dos homens hétero, as barreiras de que dispõe em relação às estruturas patriarcais nas quais estão involuntariamente inseridos, ainda que lhes mobilizem críticas. Assim, retornamos ao desafio das singularidades impostas pela experiência e ao território do indivíduo.

Não ignorando os limites da minha condição, hoje meus olhos procuram por corpos negros nos espaços, caçam as palavras com as quais os designam. Um estalo aconteceu. Comecei a gestar isso dentro de mim. Virá a dor do parto, pois de tempos em tempos ela sempre ocorre com o propósito de parir uma nova alma dentro desse corpo antigo. Nomeio esse processo como humanização e acho que é disso que somos feitos, das contrações promovidas pelo pulsar, sangrar e parir.

Priscila Aurora Landim de Castro é Doutoranda em Sociologia pela Universidade de Brasília, Professora da Faculdade de Direito – UniCEUB, Pesquisadora Associada ao Núcleo de Estudos Sobre Violência e Segurança – NEVIS/UNB. 

Sexta-feira, 24 de novembro de 2017
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